ECTRIMS 2025 – Inovações e Tendências no Tratamento da Esclerose Múltipla
Em Setembro de 2025, estive presente em Barcelona, participando do ECTRIMS — o maior congresso mundial dedicado à esclerose múltipla (EM) e outras doenças desmielinizantes. O evento reuniu pesquisadores, clínicos e cientistas de todo o mundo, apresentando descobertas que moldarão o futuro do manejo da EM e das doenças autoimunes do sistema nervoso central.
A seguir, compartilho os principais destaques científicos e clínicos do congresso:
Novas terapias promissoras em estudo
Entre os temas mais aguardados estiveram os resultados de novos agentes imunomoduladores e imunossupressores que prometem mudar o cenário terapêutico da EM e de doenças correlatas:
- Frexalimab (anti-CD40L): apresentou resultados encorajadores tanto na EM remitente-recorrente quanto em formas progressivas, com redução significativa de lesões ativas em RM e perfil de segurança favorável.
- Masitinib (inibidor de tirosina quinase): mostrou benefícios em pacientes com EM progressiva, atuando sobre mastócitos e microglia, reduzindo a progressão da incapacidade.
- Vidofludimus calcium (IMU-838): continua demonstrando ação anti-inflamatória e antiviral, com perfil oral e boa tolerabilidade.
- Inebilizumabe (anti-CD19): expandindo sua aplicação para esclerose múltipla, após eficácia comprovada em NMOSD.
- BTK inhibitors (ex: tolebrutinibe, evobrutinibe, fenebrutinibe): continuam como destaque, modulando linfócitos B e microglia — com dados do estudo GEMINI sugerindo boa eficácia com segurança aceitável.
Esses avanços reforçam uma tendência: novas drogas visando tanto o componente inflamatório quanto o neurodegenerativo da EM.
Gestação e esclerose múltipla – novas recomendações
Um dos temas mais discutidos foi o manejo da EM durante a gestação e no pós-parto.
O consenso atual reforça que a maioria das terapias modificadoras da doença (DMTs) pode ser planejada de forma segura em mulheres que desejam engravidar, com estratégias individualizadas:
- Anti-CD20 (ocrelizumabe, ofatumumabe): cada vez mais conseguimos utiliza-los em fases especificas da gestação ou na pré gestação, é muito importante acompanhar de perto com seu neurologista de confiança.
- Interferons e glatirâmeres: continuam sendo as opções mais seguras durante a gravidez, mas não são para todo mundo, se a doença é agressiva geralmente utilizamos medicamentos mais potentes como o Natalizumabe
- Maior atenção à atividade inflamatória no puerpério, com planejamento para reintrodução precoce do tratamento.
- Possibilidade da utilização de biomarcadores como o neurofilamente de cadeia leve podem nos auxiliar a ver se realmente a doença está controlada e se existe maior chance de recidiva, mesmo após a retirada do medicamento na gestação
Essas recomendações trazem maior segurança para mulheres com EM que desejam engravidar sem interromper completamente o controle da doença.
Biomarcadores e o papel dos neurofilamentos de cadeia leve (NfL)
O uso dos neurofilamentos de cadeia leve (NfL) no sangue e no líquor foi amplamente debatido.
Esses biomarcadores vêm se consolidando como ferramenta para:
- Monitorar atividade subclínica da doença;
- Predizer risco de progressão;
- Avaliar resposta terapêutica a longo prazo.
O consenso emergente é que o NfL sérico deve ser incorporado progressivamente à prática clínica, em conjunto com a RM e a avaliação clínica, como parte de um monitoramento multiparamétrico da EM.
Critérios diagnósticos IPND 2025 para NMOSD
Outro marco apresentado foi a atualização dos critérios diagnósticos da IPND (International Panel for NMO Diagnosis) de 2025.
Entre as mudanças mais relevantes:
- Maior precisão nos casos duvidosos (AQP4 negativo, MOG positivo);
- Ênfase em biomarcadores e neuroimagem;
- Critérios mais claros para síndromes limitadas (ex: mielite recorrente isolada).
Essas atualizações devem reduzir diagnósticos incorretos e permitir tratamento mais precoce e direcionado das doenças do espectro da neuromielite óptica.
Um congresso que aponta para o futuro
O ECTRIMS 2025 reafirmou a importância da personalização terapêutica — aliando genética, biomarcadores e imagem avançada — e do diagnóstico precoce como pilares no cuidado da pessoa com EM.
Saí de Barcelona com a sensação de que estamos entrando em uma nova era de medicina de precisão, com foco não apenas em reduzir surtos, mas em preservar o tecido neural e a função cognitiva a longo prazo.
Lucas O. P. Bertoldi
Neurologista e Neuroimunologista – Especialista em Esclerose Múltipla